Associações ou off shore?

A desorçamentação da Câmara guardense, através de transferências para entidades periféricas, não é um fenómeno novo. Em parte, era já conseguido através das empresas municipais. Mas após a Lei nº 50/2012, de 31.08, que impôs critérios muito apertados para a sua existência, cerca de 150 foram extintas em todo o território. Especialmente nas áreas da cultura, educação e desporto.

Contudo, acabada a galinha dos ovos de oiro, o actual executivo recorreu a outra manobra engenhosa. Transfere anualmente avultadas somas para associações de todo o tipo, ao abrigo de protocolos e apoios. Mais tarde, vai recuperar essas verbas, que escapam ao controlo das contas públicas. Por sua vez, as tais associações não têm grandes problemas financeiros e a certificação do seu bom desempenho está naturalmente garantida.

O fenómeno é preocupante. As somas em causa são consideráveis. Iremos brevemente investigar o assunto com maior acuidade.

SOS

Há dias, em modo nostálgico, deambulámos pela Guarda, tentando reactivar memórias, recolher pegadas de um tempo que acabou. O tempo em que a Guarda tinha “rua”. Tinha uma “proximidade” aconchegante. Tinha uma convivialidade natural, espontânea. Tinha cafés carismáticos, inspiradores. Tinha tertúlias acaloradas nas esquinas e nas praças. De onde brotava uma uma irreverência bisonha e dadivosa, um pulsar colectivo que se sentia, uma leveza que fazia esquecer a solidez e a asfixia do granito. Hoje, infelizmente, a cidade não tem “rua”. Funciona como um centro de dia, animada pelos serviços e algum comércio. E nem mesmo os arranjos no “mobiliário” urbano conseguem disfarçar uma urbanidade degradada, sem carisma.

Seria de esperar que, numa cálida noite de Primavera, se vissem pessoas na rua, disponíveis, com tempo. Que houvesse um “cheirinho” de civitas no ar. Mas não! Nos cafés, todos com os olhos pregados na TV. Imaginamos que assistindo a mais uma transmissão de futebol. Nas artérias principais, três pessoas a falar ao telemóvel, dois casais com ar de forasteiros e um polícia a torcer o bigode. And that’s all, folks!  Na Praça Velha, deparámos com várias filas de estudantes do IPG, munidos de um papel. Pareciam as filas para o check in no aeroporto de Lutton, em Londres. Ou uma flash mob de circunstância. Todavia, imaginamos que não passe de mais uma praxe ou coisa que o valha. Seguimos caminho, para não nos desapontarmos…

Raio X

Dois dos grandes males da Guarda: a ausência de massa crítica e o défice de adrenalina social. Evidentemente, com outros nomes se poderia qualificar a mesma realidade: défice de cosmopolitismo, falta de visão projectiva, falta de ambição intelectual (sim, é preciso não ter medo dos nomes), paroquialismo, excesso de auto-complacência, provincianismo, ausência de debate de ideias e projectos, receio daqueles que sabem e sonham serem ignorados por aqueles que nem uma coisa nem outra, mas aparecem demasiado. Não é só uma questão de know how. Nem educacional. Nem social. É a cultura, meus amigos, sempre a cultura. Ela tem aqui um peso esmagador, sente-se o quanto ela pode ou não tornar-nos mais humanos, mais livres. Mas de pouco vale, se escassearem determinadas qualidades humanas que a façam brilhar, que lhe dêem uma razão de ser: a coragem, a elegância, a leveza, a velocidade, a exigência, o acesso a uma vitalidade que não cede perante a repressão. As cidades fortes são aquelas que acreditam em si próprias. Não de uma forma provinciana, ou apropriando-se de um passado e de símbolos que não são os seus, como já vimos aqui bem perto.

Depois há a questão das elites. Um termo que assusta muita gente, mas sem qualquer razão. Veja-se a História. A existência de uma elite sempre foi determinante para a sobrevivência e o desenvolvimento de comunidades, países, civilizações. A diferença entre uma oligarquia e uma elite é que a primeira exerce o poder em benefício próprio. As segundas encaram o poder como uma realidade inconspícua e pretendem criar valor de que todos possam usufruir. Embora não seja um fenómeno local, vemos algumas pessoas na Guarda manifestarem-se publicamente contra as elites. Como se pressentissem na sua existência uma ameaça, uma afronta, um rebaixamento. Sem nunca perceberem que é graças precisamente à acção cívica dessas elites que um dia todos poderão distinguir, premiar, incentivar os melhores, só porque são os melhores. Sem azedume, sem mais ou menos, porque todos lucrarão com isso.

Nas sociedades onde a meritocracia está enraizada enquanto valor inquestionável, não há elites auto-proclamadas, mas reconhecidas enquanto tal pela comunidade. Pelo contrário, onde existe com abundância a falta de humildade e uma erudição de lapela, é quase certo que aí a tirania há-de prosperar.

Partir pedra

espatula

Há tempos, na Feira da Ladra, demos conta de um “Kit do maçon“, à venda por 5 euros. Continha um avental, uma espécie de túnica, uma fita para colocar ao pescoço e, salvo erro, uma colher de pedreiro estilizada. “Uma pechincha!”, pensámos logo. “Já dava para brincar aos maçons!” Ou então, ocorreu-nos mesmo que pudesse servir como um estimulante fétiche para fins eróticos.  Só que, neste caso com propriedade, o hábito não faz o monge. Entrar no clube, embora sendo banal, não é fácil. Para iniciar o processo, é necessário que surja um convite de um membro efectivo. Depois, há que pagar uma jóia “simbólica”, que anda na ordem dos 300 / 500 euros. No seguimento, começa um período de preparação, que inclui o estudo da matéria fornecida e a visita de um supervisor, com ebtrevistas. Passados uns meses, e se tudo correr como previsto, há a cerimónia da iniciação, um ritual  em local secreto. O recém-chegado é então formalmente admitido numa loja.

A Maçonaria já foi uma instituição prestigiada. Teve um papel fundamental em acontecimentos históricos que mudaram o mundo. Lembremo-nos das revoluções francesa e americana. Enquanto o seu lema foi servir, constituiu factor de progresso, de liberdade e de verdadeira fraternidade. E hoje, em Portugal? A Maçonaria, seja qual for a obediência, tornou-se pouco mais do que um local de trafico de influências, uma agência de empregos. Ou até pode servir propósitos sui generis. Fomos informados de que existe uma loja feminina em Lisboa que se tornou um próspero local de engate para lésbicas.  O resto, é o que se sabe. Em sociedades transparentes, a Maçonaria não tem razão de ser. Transporta resquícios de um mundo esquivo, conspirativo. E se antes o segredo protegia fins nobres, hoje dá cobertura ao nepotismo mais sórdido.

E na Guarda? Após alguma investigação, soubemos que uma mão cheia de notáveis da cidade são maçons. Alguns do mundo da política, outros d vida empresarial, outros da comunicação social. Realidades locais que, como é sabido, mais tarde ou mais cedo, acabam por se confundir. O que reforça a utilidade da pertença ao clube. Em matéria de filiação política, há para todos os gostos, com predominância do PS e do PSD. No primeiro caso, predomina o agenciamento de empregos puro e duro. No segundo, a facilitação vai também para os negócios. É um mundo onde predomina a nostalgia pindérica, a vertigem do poder, a deriva oligárquica. O seu modelo de negócio  é “se a coisa correr bem, há para todos, mas nós primeiro”. E o secretismo só é invocado como protecção das suas coutadas e zonas de influência. Passando por cima de qualquer dever de  lealdade exterior à organização. Esta gente, embora razoavelmente ignorante, é tenaz. São os grandes entraves à sociedade aberta e à meritocracia.

Ontem vi-te a passar pelo Mondego

Os Passadiços do Mondego foram anunciados por Álvaro Amaro,  com pompa e circunstância, durante a inauguração da FIT. Trata-se de uma estrutura em madeira,  com cerca de 11 Km, que acompanhará, a partir de 2020, parte do curso superior do rio Mondego,  integrado no concelho da Guarda. Ou seja entre Videmonte e a Barragem do Caldeirão. Interessante seria estendê-lo entre a Quinta da Taberna e Aldeia Viçosa. Mas não parece que seja esse o plano actual.

Da novela da sua apresentação é aqui dada notícia detalhada. Acreditamos que não faltarão os motivos para tomar a iniciativa com alguma reserva. Mas também não faltarão para nos congratularmos com ela, se fôr o caso. Os passadiços do Paiva e, agora, do Douro, que visitámos recentemente, constituem uma boa aposta, quer turística, quer ambiental. A ver vamos.

Os vozeadores da paróquia

A Rádio Altitude voltou à carga nos ataques à candidatura “A Guarda em Primeiro”. Agora pela voz da da dupla Tiago Gonçalves / Pedro Pires, um par de patuscos descobertos nos saldos do komentariado local.  Segundo Tiago, a coligação tem resquícios “fascistas”; a data escolhida para o lançamento é anedótica; dá alguns conselhos a Henrique Monteiro sobre a estratégia “correcta” a seguir pelo seu partido, acusando-o de falta de coragem por não se ter chegado à frente sozinho. Já Pires associa a candidatura ao “oportunismo político”. Para tanto, terá “usurpado” o nome da candidatura de Bento em 2013, para induzir em erro os eleitores desprevenidos. E jura a pés juntos que os elementos comuns a ambas as candidaturas são meros verbos de encher. “A Guarda em Primeiro” é assim, segundo este emérito ex presidente da Junta de Gonçalo eleito pelo PS, uma “manta de retalhos”, negativista e deserta de ideias, para além de “contra-natura”. Por último, mas não menos importante, manifesta a sua preocupação pela adulteração do processo democrático, devida à presença da candidatura.

Ocorre-nos alvitrar que as criaturas, porventura vítimas do chamado alarme social, vieram lançar os seus desabafos aos microfones da ecuménica estação. Desabafar faz bem, é dos compêndios. À falta de amigos, de lastro intelectual, de um saco de boxe, ou de um bom psiquiatra, é uma boa solução para aumentar a auto estima.  Sobretudo quando reduzidos a avatares do director da estação e sem qualquer contraditório.

Logo a abrir, coloquemos de parte as questões estratégicas internas do CDS e do seu líder. O qual, se assim entender, se encarregará de esclarecer, passando então para a magna questão da data do lançamento. Alusão que se poderá associar ao epíteto “fascista” assobiado para o ar. Tal garotice só encontra explicação na profunda ignorância sobre a História do séc. XX  e na pobreza argumentativa de quem pronuncia tal fatwa. Um caso paradigmático,  em que o sentido de uma palavra é totalmente esvaziado pelo seu uso indiscriminado. Ora, na opinião destas sumidades, o “fascismo” da candidatura impedi-la-ia de se apresentar na véspera de uma data tão simbólica, de que a dupla é dona e fiel guardiã.  Não se sabendo, excepto talvez os próprios, por alma de quem, nem porquê.

Por outro lado, os opinadores parecem estar muito preocupadas com direitos de autor e confundibilidade do slogan, ou com a ‘irrelevância’  dos elementos que transitaram entre listas. Será que nunca lhes passou pela cabeça essa ambiguidade da mensagem poder ser um objectivo pretendido pelos seus autores?  Já quanto aos tais elementos, a distinção funda-se numa ideia simples: as figuras realmente significativas passaram para o lado da “Coligação pela Guarda”. O “refugo” foi para os “outros”!  Não é fantástico este mundo a preto e branco?

Por último, os factotum da RA estranham a heterogeneidade da lista, que iria perturbar a “normalidade” democrática da eleição. Para eles, um projecto político deve ser uma empreitada unipessoal, à imagem do seu mentor AA.  As criaturas acham-se assim mandatadas para determinar quem, onde e quando um grupo de cidadãos, ou uma força política se apresentam a concurso para uma eleição local! Por eles, tudo´é simples e diáfano: Os directórios políticos decidem. As oligarquias (re)agrupam-se. O chefe ordena e as fileiras obedecem. Os caciques fazem o seu trabalho. Os lobos fazem de cordeiros e os “independentes” de cheerleaders. Um ganhador  e um perdedor antecipados dividem os cargos e a mobília. Um mundo asséptico, ordeiro, categórico, reverencial, sem surpresas. A tal “normalidade” paroquial de que estes seres tantos gostam e pela qual se vendem por tão pouco. Mas a democracia tem uma coisa curiosa, que os enfurece especialmente: às vezes, os resultados são imprevisíveis  e a manipulação dos processos de recrutamento e sufrágio não chegam para abafar a vontade dos cidadãos e a vitalidade do sistema.

A Guarda (não) renasce

Com a crise, houve uma redução drástica da sopa do convento. Alguns mais optimistas pensaram que a força das circunstâncias obrigaria, finalmente, os autarcas a aderir a um novo “paradigma” (desculpem lá o palavrão) de desenvolvimento. Um paradigma mais centrado no “imaterial”, no “intangível” (perdão, novamente, mas as palavras não são minhas, são tomadas de empréstimo de alguns gurus) e nas pessoas. Passada a fase das infra-estruturas materiais, teria chegado a era do investimento privado, startups, inovação, emprego, tecnologia, desburocratização, serviços mais amigos do cidadão, em vez de lhe infernizarem a vida. Aliás, infernizar a vida às pessoas resume bem a principal função de muitas câmaras nas últimas décadas.

Hoje, verificamos com tristeza que estas aspirações, em muitos casos, não passaram de quimeras, de fantasias. A Guarda não foge à regra. Verdade que se tornou, por exemplo, mais difícil a fundação de novas empresas municipais para aconchegar os bolsos da ladroagem local. Verdade também que já não é possível financiar o ócio de carradas e carradas de militantes como nos bons velhos tempos, o que explica, em grande parte, a guerra fratricida que assola, sobretudo, o PS e PSD. Porém, mal a torneira dos fundos se abriu um bocadinho, logo irromperam os velhos vícios e práticas que levaram Portugal à bancarrota e a Guarda a um estado de torpor, inércia e decadência. Eis de volta as famosas reclassificações de terrenos, o embelezamento urbano, as rotundas com esculturas grotescas, encomendadas, claro está, por ajuste directo – provavelmente, a amigos e familiares -, as grandes festas para animar a populaça, o “subsídio ou apoio” a órgãos de comunicação local para criarem o culto do “presidente”.

Vendo bem, que outra coisa se podia esperar de um autarca como Álvaro Amaro, criado e educado nas últimas décadas no meio dos vícios e práticas que nos arruinaram? A Guarda não renasce, o que renasce, ainda que em menor escala por força da austeridade, são os velhos vícios e práticas que nos perseguem há muito tempo e que não nos deixam sair da cepa torta.